A Percepção de Alunos sobre o uso de cartazes 
nas paredes da Universidade de Brasília

André Moniz

Trabalho desenvolvido pelo autor como parte das tarefas da disciplina Psicologia Ambiental, ministrada pelo mestrando Abelardo Vinagre da Silva, durante o segundo semestre de 1997, sob a orientação do professor Hartmut Günther. Endereço: Laboratório de Psicologia Ambiental, Instituto de Psicologia, Universidade de Brasília, e-mail: webmaster@psi-ambiental.net

Como citar este texto

Moniz, A. (1997). A Percepção de Alunos sobre o uso de cartazes nas paredes da Universidade de Brasília (Série: Téxtos de Alunos da Disciplina Psicologia Ambiental). Brasília, DF: UnB, Laboratório de Psicologia Ambiental. (disponível no URL: www.psi-ambiental.net/textos/tapa1997Cartazes.htm)

Resumo A presente pesquisa teve como objetivo verificar qual a percepção ambiental de estudantes universitários quanto a funcionalidade, ordenação e estética dos cartazes. Foram avaliadas também, as crenças destes estudantes e o comportamento mais comum frente a este ambiente. Para tanto, 98 estudantes da Universidade de Brasília participaram do estudo respondendo um questionário que englobava questões referentes a função, comportamento, beleza, crença e disposição e ordem dos cartazes dispostos nas paredes da Universidade. Os resultados mostraram que os cartazes foram percebidos positivamente em relação a variável sexo do respondente e área de concentração (exatas e humanas). Foi encontrada também, uma correlação positiva entre as variáveis função, comportamento, beleza e crença. Os dados coletados no estudo podem ser úteis para aqueles profissionais que investem na colocação dos cartazes nas universidades.

O conceito de percepção vem sendo bastante explorado no contexto atual. Destaca-se nas artes, na publicidade, na polícia, nas escolas e na própria ciência. Todas estas necessitam, de alguma forma, tornar perceptível ao público alguns fatores da realidade ou percebê-la de forma mais precisa e adequada possível. Para Simões & Tiedemann (1985) a percepção é a porta de entrada para toda a informação que a pessoa recebe e processa. Esta interpretação e processamento das informações sofrem várias influências ao longo da formação e desenvolvimento do indivíduo, variando de pessoa para pessoa. Além disso, os autores destacam que fatores culturais (ambientes demográficos e estruturas perceptivas biológicas) e motivacionais (expectativa, emoção, sede, fome e calor), aprendidos ao longo da vida do sujeito, influenciam sua percepção da realidade circundante. A percepção pode ser compreendida como um processo interpretação de dados sensoriais, é um empreendimento social e, desta forma tendemos a perceber de acordo com padrões covencionais e em função das expectativas dominantes, seguindo modelos culturalmente aprovados ou pressionadamente sugeridos.

Em vista disso, é na interação do indivíduo com seu ambiente construído ou natural que ocorre o processo de percepção e registro de informações. Dessa maneira, o conceito de Percepção Ambiental , desenvolvido por Guifford (1987) torna-se adequado neste contexto. Para o autor este é o processo de reunir e integrar informações que têm seqüência na cognição ambiental onde ocorrem, por exemplo,a avaliação pessoal de estética, bom ou mau, significativo ou inútil, prazeiroso ou desprazerioso. A proposta trazida pela psicologia ambiental é estudar este fenômeno no dia-a-dia, sem se limitar ao laboratório. Embora existam algumas dificudades de manipulação de variáveis , esta abordagem procura compreender e intervir na prática quotidiana. Alguns aspectos encontram-se relacionados com a Percepção Ambiental:

  1. as variações entre observadores (experiência com o estímulo, gênero, cultura, habilidades sensórias);
  2. as características do próprio ambiente (cidade, prédios, ou campos abertos, variando a complexidade visual).

Considerando os aspectos relativos às caracterísiticas do ambiente, salienta-se os ambientes das universidades, geralmente caracterizados pela diversidade de pessoas e interesses e alvo constante para divulgações de eventos culturais, desportivos, artísticos, científicos e comerciais. Nesses ambientes, cartazes são utilizados como o principal meio de mídia. Contudo será que esta forma de divulgação cumpre seus efeitos? Qual é a Percepção Ambiental daqueles que interagem com este ambiente alvejado de informações de toda ordem?

O objetivo deste estudo foi verificar qual a Percepção Ambiental dos estudantes da Universidade de Brasília, quanto a funcionalidade, ordenação e estética dos cartazes. Verificando também as crenças que estes estudantes alimentam e qual o comportamento mais comum frente a este ambiente. Buscou-se estabelecer uma correlação destas categorias entre si e com as variáveis: semestre, idade, gênero e área de concentração humanas ou exatas destes alunos. Estudos como este pode trazer contribuições valiosas tanto para aqueles que fazem uso desta mídia, como para a própria universidade que poderá planejar formas melhores de organizar esta divulgação.

Metodologia

Amostra

Responderam ao questionário 98 estudantes universitários, 45 homens e 52 mulheres (1 missing). Sendo 38 estudantes dos cursos da área de Humanas e 57 dos cursos da área de Exatas., dois respondentes já eram formados e um não especificou especificou o curso. A média de idade e semestre foram respectivamente, de 20,09 anos (min:17, max: 34) e 4,25 semestre (min: 1, max: 12).

Instrumento

Neste estudo foi aplicado um questionário com 42 itens, agrupados em cinco categorias, onde os sujeitos deveriam afirmar seu grau de concordância ou discordância usando uma escala de Lickert de cinco pontos, variando entre 1 (discordo totalmente), 3 (não concordo nem discordo) e 5 (concordo totalmente). Este questionário foi composto por cinco categorias definidas da seguinte forma:

  1. Função -- percepção da utilidade e funcionamento dos cartazes.
  2. Comportamento -- conduta pessoal em relação aos cartazes afixados.
  3. Beleza -- a percepção estética dos cartazes pelos sujeitos.
  4. Disposição e Ordem -- percepção quanto ao ordenamento dos cartazes afixados nas paredes.
  5. Crenças -- expressão do que as pessoas acreditam ser os cartazes e teve por objetivo acessar uma percepção mais subjetiva.

Procedimento

Os respondentes foram abordados, em sua maioria, na Biblioteca Central da Universidade em questão. Cada sujeito respondeu individualmente o seu questionário em aproximadamente 15 minutos. O pesquisador ficou próximo aos respondentes para esclarecer qualquer dúvida quanto ao seu preenchimento.

Resultados

Os resultados foram analisados pelo programa SPSS 5.0 for Windows. As cinco categorias da percepção dos cartazes foram avaliadas , bem como a relação de cada uma delas com as variáveis: sexo, área de concentração do curso (humanas ou exatas), idade e semestre. Também foi verificada a correlação das categorias entre si.

Quanto ao sexo, não houve diferença significativa entre a avaliação dos homens e das mulheres, o que indica que a percepção dos cartazes não foi muito diferente para homens e mulheres. Contudo, como mostra a Tabela 1, as mulheres tiveram uma média um pouco superior a dos homens para todas as categorias.

Tabela 1: Percepção dos cartazes para homens e mulheres nas 5 categorias de percepção

Categorias

Homens

Mulheres

Função

3.77

3.99

Comportamento

4.08

4.21

Beleza

3.00

3.18

Ordem

2.91

3.01

Crença

3.70

3.92

Considerando a pontuação máxima (5) e a mínima (1), pode-se perceber que apenas a variável ordem (2,91) obteve uma média menor entre a amostra dos homens, enquanto as mulheres avaliaram a mesma variável com a média de 3,01. A categoria comportamento foi a que apresentou a média mais alta para ambos os sexos (homens: 4,08 e mulheres: 4,21) se comparada com as demais. A maior diferença encontrada nas avaliações dos homens e das mulheres foi em relação a categria crença. Nesta as mulheres (3,92) acreditam que os cartazes são mais positivos que para os homens (3,70).

Quanto a área de concentração dos estudantes, houveram algumas diferenças mínimas entre as avaliações. A maior delas, como pode ser visto na Tabela 2, foi para a beleza dos cartazes. As humanas perceberam a função dos cartazes de uma forma mais positiva (4,42) que as exatas (3,96). O escore para a categoria comportamento em relação aos cartazes foram altos para ambas as áreas (humanas: 4,38, exatas: 4,51), com leve predomínio das exatas. A beleza foi percebida em maior grau pelas exatas (3,33) que pelas humanas (2,72). A ordem e disposição dos cartazes foi percebida de modo bem próximo para ambas as áreas. Na variável crença as humanas (4,07) julgam os cartazes mais positivamente que as exatas (3,74).

Tabela 2: Percepção dos cartazes para as áreas de humanas e exatas nas 5 categorias.

Categorias

Humanas

Exatas

Função

4.42

3.96

Comportamento

4.38

4.51

Beleza

2.72

3.33

Ordem

3.28

3.23

Crença

4.07

3.74

Feita a correlação entre as categorias e entre elas e as variáveis semestre e idade, os resultados mostraram que houve uma correlação positiva entre função e comportamento ( r= .429; p=.00), beleza e crença (r=.541; p= .00). Para a categoria ordem foi encontrada uma correlação negativa para todas as outras variáveis, exceto semestre e idade, onde não foi encontrada significância.

Para se ter uma idéia geral das implicações destes resultados, as correlações positivas indicam que quando a pontuação de uma das variáveis cresce ou diminui, a pontuação da outra variável, a qual ela esta correlacionada, segue o mesmo padrão. Já quando a correlação é negativa, quando a pontuação de uma variável sobe ou diminui, a variável a ela relacionada segue o comportamento oposto. Para se ter um exemplo, tomemos a variável função: os sujeitos que julgaram a função dos cartazes de forma positiva (ou negativa), igualmente se comportam bem (ou mal) com relação a eles. Mas no caso de sua correlação negativa com ordem (r= .-342; p=. 001), acontece o contrario. A medida que os sujeitos julgam os cartazes funcionais, belos e se comportam bem com relação a eles, passam a julgar mal sua ordem e disposição, e vice-versa.

Discussão

De acordo com os resultados encontrados neste estudo, observou-se que os cartazes foram percebidos positivamente quanto ao sexo e área de concentração da amostra. Embora a literatura aponte que diferenças de sexo e cultura influem na percepção dos cartazes (Guifford, 1987, Simões & Tiedemann , 1985) isto não foi verificado neste estudo. Duas explicações podem ser atribuída para esse dado. A inserção em um meio comum universitário e a exposição aos mesmos estímulos podem nivelar as percepções dos alunos, ou por outro lado, o instrumento não foi sensível às diferenças de cada uma destas áeras.

Os dados coletados neste estudo podem ser aproveitados por aqueles que investem na colocação de cartazes de duas formas: investindo nas pessoas recém-chegadas a universidade, colocando-as como público-alvo; e buscando manter a ordem dos cartazes bem apresentável. Desta forma poderiam agradar aqueles que, percebem a função e beleza dos cartazes de forma contrária a sua organização.

A própria indistinção de estudantes quanto ao sexo e área de concentração é um dado importante, pois indica que pode existir uma uniformidade quanto a percepção.

Este estudo teve algumas limitações, entre elas, a construção do instrumento, que não passou por todas as etapas técnicas convencionadas em estudos e aplicação de testes, por exemplo: 1) observação ou entrevistas para levantar as variáveis; 2) validação, 3) precisão, etc. Uma outra proposta seria a de buscar uma amostragem uniforme de pessoas dos vários cursos da universidade, com um mesmo número de estudantes para cada uma.

No entanto, mesmo com a limitações acerca desta pesquisa, ressalta-se que o estudo sobre a percepção de cartazes nos corredores das universidades deveria ser mais abordado pelos publicitários, organizadores de eventos e informadores em geral, pois dela depende a eficácia da divulgação.

Referência

Gifford, R. (1987). Environmental Psychology: principles e practice. Massachusetts: Allyn and Bacon, Inc.

Simões E. A.Q. & Tiedemann, K.B. (1985) Psicologia da percepção II. São Paulo: EPU.

Anexo

Conteúdo do Questionário Utilizado

Este questionário é o resultado de uma atividade prática da disciplina Psicologia Ambiental, oferecida pelo Instituto de Psicologia UnB. É nosso objetivo levantar junto aos alunos e funcionários qual é sua percepção dos cartazes da UnB. Não é necessário se identificar. Os dados desta pesquisa serão usados em atividades didáticas e ilustrativas.

Marque as assertivas abaixo de acordo com seu grau de concordância, numa escala de (1) discordo totalmente a (5) concordo totalmente

Que tipo de sugestão poderia ser dada a UnB quanto a disposição de cartazes e avisos nas paredes?

Idade:_____

Sexo:______

Curso:_______

Semestre:______

Muito Obrigado por sua participação