Lazer em Brasília: Uma Visão de Alunos Universitários

Cristianne Maria Faulhaber Lopes

Trabalho desenvolvido pela autora como parte das tarefas da disciplina Psicologia Ambiental, ministrada pela mestrando Abelardo Vinagre da Silva, durante o segundo semestre de 1997, sob a orientação do professor Hartmut Günther.
Endereço: Laboratório de Psicologia Ambiental, Instituto de Psicologia, Universidade de Brasília, e-mail: webmaster@psi-ambiental.net

Como citar este texto

Lopes, C. M. F. (1997). Lazer em Brasília: Uma Visão de Alunos Universitários (Série: Téxtos de Alunos da Disciplina Psicologia Ambiental). Brasília, DF: UnB, Laboratório de Psicologia Ambiental. (disponível no URL: www.psi-ambiental.net/textos/tapa1997LazerBSB.htm)

Resumo O presente trabalho originou-se do senso comum de que Brasília não oferece boas condições de lazer . Buscou-se, portanto, confirmar ou refutar tal hipótese tendo como alvo uma amostra de 58 universitários divididos entre a UnB (Universidade de Brasília) e a UNEB ( União Educacional de Brasília). Objetivou-se ainda, identificar, dentro da amostra em questão, quais eram as opções de lazer mais relevantes para os universitários, discriminando tais opções por sexo. Foi possível encontrar também, informações referentes ao tipo de locomoção, companhia preferida para as atividades desenvolvidas e sugestões para tornar a cidade mais atrativa para o lazer. Os dados obtidos partiram de uma análise dos questionários aplicados. Foi possível, neste estudo, descobrir que na opinião dos entrevistados, Brasília oferece poucas opções de lazer. Além disto, um dado interessante refere-se à opinião de que as alternativas existentes possuem um preço alto, o que torna determinados locais inacessíveis, mesmo para uma população alvo que reside, na sua maior parte, no Plano Piloto.

 

Segundo Gaelzer (1979), a cultura, sendo entendida como uma herança social completa, tem o poder de moldar a juventude de acordo com seu próprio modelo. Desta forma, as definições de lazer variam através dos tempos, de nação para nação, de cultura para cultura. No Brasil, até 1930, as jornadas de trabalho eram acima de 12 horas por dia tanto para mulheres e crianças quanto para homens, sendo os salários baixíssimos. Somente a partir de 1930, com a criação do Ministério do Trabalho, surgem transformações sociais significativas no relacionamento trabalho-produção-tempo livre. Tais medidas, contudo, vinham inicialmente "de cima para baixo", sem o consenso popular. A idéia de lazer era vinculada ao "espírito de época" eminentemente político. Desta forma, os Grêmios, Associações, Clubes e Ligas eram as formas possíveis de se obter lazer no tempo livre. Com o advento da Segunda Guerra, ocorre uma maciça migração das zonas rurais para as cidades o que desencadeia os problemas de habitação, transporte, trabalho, assistência e recreação. É neste contexto que surgem o Sesi (Serviço Social da Indústria) e o Sesc (Serviço Social do Comércio) em 1946. Tais entidades iniciam, entre outras atividades, programações de lazer que são oferecidas à população em geral (Azevedo,1978). Percebe-se o surgimento de uma mentalidade que compreende o Homem, além do trabalho e das suas costumeiras obrigações, precisa de um momento para si.

O lazer, do latim licere (que significa "ser permitido"), é o que permite ao indivíduo conseguir equilibrar-se consigo mesmo e com o ambiente, favorecendo seu próprio bem-estar. Este bem-estar é que condiciona uma oportunidade de auto-avaliação e aperfeiçoamento, além do desenvolvimento físico, mental e espiritual. Para tanto, o tempo livre torna-se condição essencial. O tempo livre não implica em ócio, mas sim significa que o indivíduo, em suas horas de lazer, se ocupa de algo que possa lhe trazer satisfação, crescimento e equilíbrio pessoal além de lhe possibilitar uma transação benéfica.

Com isto, qualquer pessoa precisa de lazer. Dentro desse amplo universo, os universitários têm sido alvo de estudos que buscam entender com se dá a distribuição do seu tempo e em que proporção o lazer está inserido no mesmo. Uma das razões que levam à realização de tais estudos refere-se ao fato de que os universitários constituem um recurso humano valioso como força de trabalho técnico em potencial. Portanto, a qualidade de uso de seu tempo livre pode influenciar na qualidade do profissional que será formado.

Em virtude desses fatores, a pesquisa em questão busca identificar quais são as opções do universitário brasiliense. O primeiro fato que influencia tal pesquisa refere-se a que Brasília oferece condições de estudo, ensino, pesquisa e extensão sobre vários aspectos relacionados à qualidade de vida, ao lazer e à percepção ambiental da Capital do país (Günther, 1991). Em segundo lugar, existe uma crença informal comum entre os jovens de que Brasília é uma cidade que oferece poucas opções para lazer, embora a pesquisa de Fonseca, Sadeck e Véncio (1993) revele que os jovens consideram a cidade como tendo boas opções de lazer. Desta forma, os objetivos específicos do presente trabalho consistiram em identificar o quê os jovens fazem no seus finais de semana (considerando as facilidades e dificuldades de acesso aos locais e de realização das atividades), assim como descobrir empiricamente, o real pensamento dos referidos sujeitos em relação às opções de lazer em Brasília. A definição de lazer adotada foi a ocupação que se tem nos momentos de tempo livre. Este sendo entendido como como aquele no qual o sujeito não está estudando, trabalhando (por uma remuneração) ou fazendo qualquer atividade por obrigação. A escolha é um conceito fundamental dentro desta perspectiva de tempo livre.

A partir da aplicação de um questionário no campus da UnB e na Faculdade UNEB, pretende-se comprovar se os jovens universitários concebem ou não Brasília como uma cidade com poucas opções de lazer, assim como verificar com quem os seus momentos de lazer são compartilhados.

Metodologia

Sujeitos

A amostra foi formada de 58 respondentes, 29 do sexo feminino e 29 do sexo masculino, sendo que 48 eram estudantes da UnB e 10 da UNEB. A idade variou de 18 a 36 anos, sendo a idade média de 22,5 anos. Verificou-se que 68,9% trabalham tendo algum tipo de renda própria e que 31,1% não exercem nenhum tipo de atividade remunerada. A maior parte dos entrevistados reside no Plano Piloto (74,1%), distribuídos em 15,5% na Asa Sul, 31% na Asa Norte, 17,2% no Lago Sul e 10,4% no Lago Norte. A residência nas cidades satélites e Valparaízo (única especificada no item Outros) alcançou um índice de 25,9%. Constatou-se ainda que 94,8% da amostra eram estudantes universitários.

Procedimento

Os questionários foram aplicados em três fases, sendo duas no Campus da UnB e uma na UNEB, em três segundas-feiras seguidas. O objetivo da escolha deste dia da semana ocorreu em virtude de propiciar a lembrança das atividades que foram exercidas no sábado anterior (vide questionário em anexo).

Os participantes foram escolhidos por estarem aparentemente disponíveis. A aproximação ocorreu com aqueles que estavam conversando, lendo jornal ou apenas sentados. No primeiro contato, explicava-se qual era o objetivo do questionário e indagava-se sobre a possibilidade de cooperação dos respondentes. Quando a resposta era afirmativa, passava-se para um segundo momento que era o da entrega do questionário. Torna-se importante esclarecer que este primeiro momento consistia em informar a natureza do trabalho: uma pesquisa acadêmica de uma disciplina da Psicologia visando descobrir o quê os jovens universitários fazem em seus momentos de lazer e o que os mesmos acham do lazer em Brasília. Informações adicionais eram fornecidas quando os participantes perguntavam outros dados referentes à pesquisa que estava sendo desenvolvida.

Instrumento

O questionário utilizado foi construído pela pesquisadora em conjunto com o professor da disciplina, visando abranger, objetivamente, as questões iniciais propostas. Buscou-se um instrumento que possibilitasse a interação individual pesquisador-colaborador. Seguiu-se ainda, na confecção do instrumento, a sugestão de Günther de que o questionário visasse atender os temas de interesse do pesquisador assim como manter o interesse do participantes em preenchê-lo. Desta forma, o instrumento utilizado foi simples, objetivo e curto (ver em anexo).

Resultados

Conforme os dados obtidos da amostra foi possível verificar que, para as mulheres as atividades mais relevantes nos sábados foram as seguintes: ir a festas (31%), ir à casa de parentes (17%) e ficar em casa sozinha (17%). Quanto aos homens, as opções escolhidas foram a prática de atividades esportivas (38%- especificada no item "outros"), ficar em casa sozinho (20,6%) e ir à casa de amigos (17,2%).

Quando a amostra foi dividida em relação ao tipo de condução verificou-se que a maioria dos respondentes disse utilizar carro próprio para chegar aos locais de lazer. A tabela 1 apresenta a divisão da amostra em relação ao sexo e tipo de locomoção.

Tabela 1: Tipo de locomoção utilizada nas horas de lazer em relação a amostra de homens e mulheres.

Tipo de locomoção Homens Mulheres
Carro próprio 51,7%

48%

Carro de amigos 17,2%

17%

A constância da prática das referidas atividades de lazer dos respondentes foi de uma vez por semana tanto para homens (31%),quanto para as mulheres (34,5%).

As mulheres costumam, segundo os dados obtidos, realizar as atividades nos sábados em igual proporção com namorados/maridos (38%) e com amigos (38%). Já os homens preferem sair com os amigos (51%) ou então sozinhos (31%).

A amostra tanto de homens quanto de mulheres opinaram que Brasília oferece poucas opções de lazer. Como sugestões, as mulheres colocaram que a oferta de shows e mais opções culturais seriam atrativos para o lazer. Os homens citaram a importância dos preços das opções de lazer serem mais acessíveis.

Discussão

Torna-se inicialmente importante, ressaltar a opçõa da pesquisadora de avaliar a opinião dos homens e das mulheres em virtude da igual proporção de respondentes dos respectivos sexos, o que não ocorreu com a variável UnB/UNEB. Contudo, a partir dos dados obtidos foi possivel chegar às seguintes conclusões:

Brasília parece não oferecer boas condições de lazer, contudo a freqüência das atividades desenvolvidas acontece em média, uma vez por semana. Isto levanta a seguinte questão: será que esta repetição de uma mesma atividade não acontece devido à falta de opções?

Constatou-se que as atividades mais desenvolvidas consistiram na prática de atividades esportivas, ir a festas, ir à casa de parentes, ficar sozinho(a) em casa e ir à casa de amigos. O tipo de condução mais utilizado é o carro próprio e o carro de amigos. A companhia para as atividades de lazer ficou dividida entre homens e mulheres: as mulheres preferiram os namorados/maridos e amigos em igual proporção, enquanto os homens optaram pelos amigos.

Como sugestões mais relevantes, ficam a necessidade de mais shows e atividades culturais, assim como um preço mais acessível para as mesmas. Daqui surge uma outra sugestão para um próximo estudo: Será que o fato da amostra em questão considerar a cidade com poucas opções de lazer não é decorrente do alto preço dos eventos culturais? Será que se tais atividades fossem mais acessíveis, a opinião de brasiliense em relação ao tema abordado seria diferente?

A amostra aqui apresentada não pretende esgotar o assunto. Muitas questões ficam em aberto, sendo necessários outros trabalhos de alunos e/ou interessados no assunto, a fim de aprofundar o tema aqui abordado.

Referências

Azevedo, A.V.D (1978) Lazer para Universitários? Dissertação de Mestrado, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, RJ.

Fonseca, A. J; Sadeck, F. C & Véncio, J. C (1993) Locais de lazer em Brasília. Textos do Laboratório de Psicologia Ambiental, 2, 81-82

Gaelzer, L (1979) Lazer, benção ou maldição? RS: Ed. Sulina

Günther, H (1994) Desenvolvimento de instrumento para levantamento de dados (survey). Textos do Laboratório de Psicologia Ambiental, 3, 5-1 a 5-16

Günther, H (1991) Brasília como laboratório natural de ensino da Psicologia Ambiental. Textos do Laboratório de Psicologia Ambiental, 1, nº5, 1-3

Anexo

Conteúdo do Questionário Utilizado

Caro(a) Jovem:

Dizem que Brasília é uma cidade que oferece poucas opções de lazer. Será que é assim mesmo? Com esta pesquisa pretendemos descobrir o que os jovens costumam fazer nos finais de semana. Gostaríamos de contar com sua colaboração e pedimos que responda a este questionário. O preenchimento tomará poucos minutos do seu valioso tempo e será importante para uma análise das opções de lazer que o brasiliense dispõe. Lembramos que suas respostas serão tratadas de maneira confidencial, de tal modo a não permitir a identificação de respostas individuais.

Muito obrigado pela sua cooperação.

01- O que você fez no último sábado? Marque todas as alternativas que se aplicam a você

 fui ao cinema Qual?______________

fui ao teatro Qual?______________

fui à casa de amigos

fui à casa de parentes

fiquei em casa recebendo amigos

fiquei em casa sozinho

fui à boate/danceteria Qual?_________

fui ao barzinho Qual?_________

fui ao Restaurante/lanchonete Qual?_________

fui ao clube Qual?_________

fui ao Shopping Qual?_________

fui a uma festa Qual?_________

fui visitar pontos turísticos deBrasília Qual?_________

(Catetinho, Água Mineral, Torre de TV, etc...)

participei de evento religioso Qual?_________

(missa, culto, etc)

outros (Especifique) __________________

02- Como foi que você chegou aos lugares assinalados acima?

carro próprio 

carro de amigos 

carro dos pais 

ônibus

outros (especifique)

03- Em qual das atividades assinaladas você passou mais tempo? (Cite aquela que foi mais relevante)

04- No mês passado, quantas vezes você realizou a atividade especificada na questão anterior (nº 03)?

Todos os dias

Três vezes por semana

Uma vez por semana

Duas vezes por mês

Uma vez por mês

Outros (especifique): ________________

05- Ainda em relação à atividade da questão nº 03 você geralmente realiza:

sozinho(a)

com amigos(as)

com namorado(a)/marido(esposa)

outros (especifique)

06- Além do círculo acadêmico, você faz parte de algum grupo:

religioso

político

outro (qual/quais)

07- Você acha que Brasília oferece boas condições de lazer?

Sim             Não

Você teria alguma sugestão para tornar o lazer ainda mais agradável?

Concluindo, pedimos algumas informações para melhor caracterizar os respondentes desta pesquisa. Lembramos que os dados serão apresentados de maneira a não permitir identificar os indivíduos.

Qual a sua idade?

Você é estudante do nível superior?  Sim      Não

Qual o curso que você faz?

Qual é seu sexo?  Masculino      Feminino

Em qual parte de Brasília você mora?

Asa Sul (especifique o nº da quadra)

Asa Norte (especifique o nº da quadra)

Lago Sul (especifique o nº da quadra)

Lago Norte (especifique o nº da quadra)

Cidade Satélite (especifique qual)

Outros (especifique)

Você tem renda própria?

Trabalho de 20 horas semanais

Trabalho de 30 horas semanais

Trabalho de 40 horas semanais

Estágio

Bolsa Científica

Outros (especifique)

Muito obrigado pela sua colaboração!