Influência do Clima no Comportamento dos Estudantes da UnB

Lilian Cavalheiro Rodrigues e Patrícia Fagundes Caetano

Trabalho desenvolvido pelas autoras como parte das tarefas da disciplina Psicologia Ambiental, ministrada pelo  professor Hartmut Günther, durante o segundo semestre de 1998. Endereço: Laboratório de Psicologia Ambiental, Instituto de Psicologia, Universidade de Brasília, e-mail: webmaster@psi-ambiental.net

Como citar este texto

Rodrigues, L. C., & Caetano, P. F. (1998). Influência do Clima no Comportamento dos Estudantes da UnB (Série: Téxtos de Alunos da Disciplina Psicologia Ambiental). Brasília, DF: UnB, Laboratório de Psicologia Ambiental. (disponível no URL: www.psi-ambiental.net/textos/tapa1998Clima.htm)

Resumo Esta pesquisa teve por objetivo investigar a influência do clima seco no comportamento dos estudantes da Universidade de Brasília-UnB. Participaram do estudo 50 estudantes, sendo 23 mulheres e 27 homens. Os resultados obtidos sugerem que no decorrer do período da seca, as atividades dos estudantes referentes ao estudo diminuem, assim como, sua capacidade de produtividade.

A cidade de Brasília, localizada na região Centro-Oeste, é caracterizada pelo predomínio do clima tropical, no qual há distribuição das precipitações em dois períodos bem definidos: uma estação seca, que dura de abril a setembro, e uma de chuvas, que vai de outubro a março. A temperatura é amenizada pela altitude (1.000m), apresentando pequenas variações ao longo do ano (cerca de 4o C entre a média do mês mais frio e a do mais quente) e grandes diferenças diárias (cerca de 13o C) (Conhecer 2000, 1995).

Günther & Rozestraten (1995), propõem que "...a localização geográfica e climática da cidade, implica numa série de desafios ecológicos e oportunidades de estudos comportamentais: por exemplo, os longos períodos sem chuvas com sua necessidade de conservação de água e do verde, ou o consumo e conservação de energia.

Na pesquisa desenvolvida por Ramagem & Oliveira (1993), foi estudado a influência do clima no comportamento dos habitantes de Brasília, onde pôde-se constatar que os mesmos realmente sofrem os efeitos do clima e modificam seus hábitos afim de tentar amenizar a sua influência.

O presente estudo teve como objetivo investigar a influência do clima seco no comportamento dos estudantes da Universidade de Brasília - UnB; buscando identificar quais são os seus efeitos e quais os cuidados que devem ser tomados para amenizar esses efeitos.

Metodologia

Sujeitos

Participaram do presente estudo 50 pessoas, sendo 23 do sexo feminino e 27 do sexo masculino. Os sujeitos foram recrutados na biblioteca da Universidade de Brasília, com as idades variando entre 18 e 38 anos. Todos residentes em Brasília, com variação do tempo de residência entre 1 a 38 anos. O local de nascimento foi diversificado: norte a sul do país incluindo, além disso, alguns estrangeiros. Contudo, 60% dos entrevistados tinham como local de nascimento a cidade de Brasília. Eram critérios para a participação no estudo: estar cursando pelo menos o segundo semestre da UnB, assim como, residir em Brasília há pelo menos um ano.

Instrumento

Utilizou-se um questionário composto por nove perguntas, sendo oito fechadas e uma aberta, além dos dados pessoais. (Vide Anexo B)

Procedimento

O questionário foi aplicado na biblioteca da UnB e os sujeitos foram selecionados de forma randômica (a entrega do questionário tinha como critério a alternância entre as mesas). As instruções dadas visavam informar ao entrevistado sobre preenchimento do questionário e que em caso de dúvidas recorressem a eles. Não foi estipulado limite de tempo, contudo, os sujeitos demoraram em média nove minutos para responder o questionário. Além disso, todos responderam de próprio punho.

Resultados

Os resultados do presente estudo sugerem que os comportamentos dos estudantes da Universidade de Brasília são influenciados pelo clima seco. Dos 50 entrevistados, 30 afirmaram que suas atividades de estudo durante a seca diminuem, e 43 entrevistados afirmaram que sua produtividade, ou seja, sua capacidade de prestar atenção, de escrever durante as aulas também diminui

Quanto a freqüência às aulas durante o período da seca, 41 entrevistados afirmaram que ela não se altera. Contudo, os que afirmaram que sua freqüência diminui tiveram como principais motivos a indisposição (n=8), sonolência (n=7), tontura (n=4), dores de cabeça (n=3) e outros (n=2).

A maioria dos entrevistados colocou como medida para amenizar os efeitos da seca: o uso de roupas leves (n=44), procurar evitar esforço físico (n= 21), uso de protetor solar (n=8), rinosoro (n=5), além de evitar exposição ao sol (n=5) e uso de umidificadores (n=3).

Dos 50 sujeitos, 46 afirmaram que ingerem uma quantidade maior de água durante o período seca e que essa necessidade é suprimida pela utilização de bebedouros (n=28), compra de água (n=28), trazendo de casa (n=10) e outros (n=2).

Uma pequena parte dos entrevistados (n=19) afirmou que os dias secos influenciam no número de deslocamentos que realizavam dentro da UnB.

Quanto às providências que a prefeitura da UnB deveria tomar, durante a seca, a fim de evitar danos à saúde dos estudantes, foram citados: o aumento da quantidade de bebedouros espalhados pelos campus (n=19), melhoria da qualidade dos mesmos (n=9), instalação de ventiladores nas salas de aula (n=4), suspensão das aulas durante o período crítico (n=3) e distribuição de garrafas d’água (n=2).

Discussão

Por meio deste estudo, pôde-se observar que os estudantes entrevistados, em sua maioria, sofrem a influência do clima seco, modificando seus comportamentos durante esse período.

Desta forma, verificou-se através dos dados obtidos pelos sujeitos, que no decorrer desse período suas atividades referentes ao estudo diminuem, assim como, sua produtividade.

Quanto às medidas utilizadas para amenizar os efeitos da seca, as mais freqüentes foram: uso de roupas leves, ingestão de maior quantidade de água, evitar esforço físico, uso de protetor solar, uso de rinosoro (remédio para o nariz), dentre outros.

As pessoas que têm sua freqüência às aulas diminuída durante o período da seca vivem em média (19,3 anos) mais tempo em Brasília do que aquelas que afirmaram não alterar a sua freqüência às aulas (15,6 anos em média). Esses dados, porém, são contrários a idéia do grupo de que quanto menor o tempo de residência dos estudantes em Brasília, maior seria a influência do clima em seus comportamentos.

A maioria dos sujeitos acredita que a Prefeitura da UnB poderia tomar determinadas providências a fim de evitar danos à saúde dos estudantes, como no caso, o aumento da quantidade e melhoria na qualidade dos bebedouros espalhados pelo campus, suspensão das aulas durante o período crítico, distribuição de garrafas d’água, entre outros.

Uma das dificuldades encontradas na realização do estudo tornaram limitadas as possíveis generalizações ocorridas. Primeiramente, a amostra não foi representativa. Outro fator limitante foi o número insuficiente de estudantes das diferentes áreas ( humanas, exatas e saúde) afim de que se pudesse realizar comparações entre eles. Tais comparações permitiriam verificar se há ou não diferenças de percepção e enfrentamento em relação ao clima seco.

As informações como idade, sexo e lugar de origem, coletados à respeito dos sujeitos, foram considerados irrelevantes para a análise dos dados.

Um aspecto bastante positivo deste estudo, foi o fato de possibilitar ao grupo uma maior interação com as formas/tipos de pesquisa e um primeiro contato com a análise quantitativa a partir das entrevistas realizadas.

O estudo possibilitou uma maior reflexão sobre o tema – A influência do clima seco no comportamento dos estudantes da UnB, assim como, uma percepção sobre a variedade de questões que podem ser abordadas na disciplina de psicologia ambiental.

Novas pesquisas a esse respeito poderiam ser realizadas, como foi proposto no estudo de Ramagem & Oliveira (1993), "O ideal nessa pesquisa, seria realizar esse trabalho ao longo de um ano inteiro, em cada estação, com um maior números de sujeitos. Desse modo, a verificação da influência do clima seco ficaria mais próxima da realidade, e, ainda, seria possível observar se existe uma influência da estação na qual está sendo aplicado o questionário nas respostas dos sujeitos, ou seja, um questionário respondido na época da chuva pode indicar como sendo a pior época do ano a estação das chuvas"(p:60).

Referências

CONHECER 2000, (1995). Brasília.vol.5. São Paulo: Nova Cultura. pp.136-137.

Günther, H & Rozestraten, R.J.A. (1995). Psicologia Ambiental: Algumas Considerações sobre sua Área de Pesquisa e Ensino. Textos do Laborátorio de Psicologia Ambiental. vol. 4. nº 2. pp. 9-14.

Ramagem, D.E. & Oliveira, S.G. (1993). Influência do Clima Seco no Comportamento dos Habitantes de Brasília. Textos do Laboratório de Psicologia Ambiental. Vol. 2. nº 16. pp. 59-60.

Anexo

Conteúdo do Questionário Utilizado

Curso:____________ Semestre: ______
Sexo: ____________ Idade: ____
Onde nasceu? __________________________
Quanto tempo reside em Brasília? __________
-Durante o período de seca sua freqüência às aulas:

Aumenta     Diminui     Não se altera

1.2 – Se sua freqüência diminui, quais os motivos que o levaram a isso?

( )Indisposição

( )Dores de cabeça

( )Sonolência

( )Tontura

( )Pela diminuição dos outros alunos nas aulas

( )Outros. Quais? __________________

2 – Suas atividades referentes ao estudo devido à seca:

Aumenta    Diminui     Não se altera

3 – Sua produtividade, ou seja, capacidade de prestar atenção, de escrever durante as aulas:

Aumenta    Diminui    Não se altera

4 – O que você faz para amenizar os efeitos da seca:

( )Uso de Rinosoro (remédio para o nariz)

( )Uso de protetor solar

( )Uso de roupas leves

( )Procura evitar esforço físico

( )Outros. Quais?

5 – Durante o período da seca, você bebe:

Mais água    Menos água    Não faz diferença

5.1 – Se a quantidade de água que você bebe aumenta, como você supre essa necessidade?

( )Utilizando bebedouros

( )Comprando água

( )Trazendo de casa

( )Outros. Quais?-------------------------

6 – Os dias secos influenciam no número de deslocamentos que você realiza dentro da UNB?

Sim    Não

7 – Você acredita que a Prefeitura da UNB pode tomar algumas providências, durante o período

de seca, para evitar danos à saúde dos estudantes?

Sim    Não

Quais?